O mundo não tolera inércia

#024 - Melhorias evolutivas em pequenas doses

Estava passando pela timeline do LinkedIn e me deparei com o texto de um antigo colega de trabalho que tinha essa frase:

O mundo não tolera a inércia.

Gabriel Merigo

Essa frase me impactou.

O Merigo (um excelente profissional por sinal), resumiu em poucas palavras uma verdade universal, isso mexeu comigo e me influenciou na edição de hoje, que contém:

  • Uma história de pequena evolução pessoal como exemplo e gatilho

  • Diferenças entre uma mudança experimental e uma mudança drástica

  • Reflexão sobre como a evolução é não linear e pouco previsível - errar faz parte

  • Conclusão com um chamado à ação prático

Primeiro, uma história com o contexto.

Comecei a correr à noite

quase dois anos iniciei uma rotina de correr de manhã, pois era a hora que dava pelos meninos pequenos e o Vicente como recém nascido. Até publiquei bastante nos Stories e escrevi sobre essa rotina e processo de mudança.

Na última semana fiz algo inédito, que para você leitor ou leitora, não parecerá nada sério, mas, para mim, foi. Fui correr/me exercitar à noite, e é sobre isso que quero falar no texto de hoje. Não sobre a corrida ou exercício, mas sobre experimentar coisas novas.

Me percebi alterando uma rotina que funciona bem há dois anos! Eu me identificava como “corredor das 6am”, alguém que tinha rotina matinal, isso já era parte da minha identidade.

Ao fazer esse pequeno experimento, percebi que:

  • Eu não tolero a inércia e uma insatisfação mal resolvida;

  • Não tenho medo de mudar a mim mesmo e minha identidade;

  • Aceito que a vida é um eterno ir e vir de pequenos experimentos não lineares, com erros e acertos;

Acho que é senso comum que: “a vida é como andar de bicicleta, se parar você cai”. Mas precisamos de exemplos mais concretos, o que quer dizer isso? Fazer um MBA? Um novo curso? Exercícios físicos?

Essa mudança era tão pequena, e para mim é tão óbvio experimentar e reinventar, mas talvez não o seja para muitos.

Acredito que pessoas podem ter medo de mudar por achar que:

  • Mudanças geram medo e são grandes

  • Se eu não seguir um caminho de felicidade e sucesso rápido, não estou no caminho certo

Quero desmistificar, argumentando que:

  • O ideal é aprender a gerar pequenas mudanças incrementais, com baixíssima resistência;

  • A evolução é não linear e pouco visível no curto prazo (você está evoluindo, mas sem ver isso);

Quero passar um pouco do DNA evolutivo que aprendi a cultivar e que, ao final, você se sinta mais apto a experimentos pequenos na vida.

A zona de expansão

A “Zona de Conforto” é famosa, inclusive com críticas a pseudo coachs de Instagram. Sei lá se eu me enquadro em um desses, talvez.

Porém, o argumento é sólido, a Zona de Conforto existe, e que bom que exista! Imagina ficar o tempo todo desconfortável de alguma forma. Acredito que seja natural buscar o conforto.

Porém, se algo te frustra ou deixa insatisfeito, é preciso pisar um pouco fora, na chamada “Zona de Coragem”, “Zona de Aprendizagem” ou “Zona de Expansão” (como mostra a imagem a seguir).

Eu gostei dessa imagem, pois, se for muito além, vira a Zona de Pânico, não queremos isso também, queremos o “Stress Controlado”.

O fato é: Evoluir é desconfortável, mas só um pouco, não precisa ser demais.

Um caminho não linear de evolução - Mudança evolucionária

Trabalhando como agente de mudança organizacional, meu dia a dia é conduzir mudanças intencionais, lidar com resistências e promover melhorias que aumentem os resultados da empresa.

Pensei com meus botões ao escrever esse texto: “é óbvio, é por isso que gosto disso, eu gosto de evolução!”. E o que se aplica a um contexto organizacional, parece se aplicar a mudanças e evoluções pessoais também.

O Método Kanban e o KMM (Kanban Maturity Model) são poderosas fontes de como implementar mudanças, bebendo em fontes da biologia e sociologia. Uma das coisas que apresento em treinamentos sobre melhoria contínua é:

A melhoria contínua não acontece em um caminho reto e linear, ela tem desvios imprevisíveis e idas e vindas. Não é porque fizemos algo diferente que isso necessariamente é uma melhoria.

A mudança evolucionária tem um perfil emergente de idas e vindas, parecido com a imagem a seguir:

Adaptado de David Anderson (Autor do Método Kanban e KMM)

Não é porque testei correr à noite que vou “morrer abraçado com isso”. Vou avaliar, ver o que funcionou, e testar diferente, ou não.

Pensar desta forma inclui premissas como aceitar que podemos errar, que tudo evoluiu olhando no longo prazo e, acima de tudo, a importância de dar pequenos passos.

O perfil da mudança — A curva ‘J’

Toda mudança pretende aumentar o desempenho atual em um espaço de tempo. Sair do ponto A ao ponto B.

A questão é, em quanto tempo?

duas formas de abordar uma mudança:

  • Revolução (linha azul a seguir): A revolução muda drasticamente processos, mexe com cargos e identidade, tem um esforço muito alto de preparação e planejamento, causando uma alta resistência e riscos de falhar muito maiores;

  • Evolução (linha verde a seguir): Tem o mesmo perfil da “Curva J”, mas em pequenas ondas. Pequenas mudanças com baixa resistência, mudando apenas rotinas, ferramentas, algo que não vá ferir o “status quo” vigente;

Adaptado de KMM (Figura 16.3) e Wester (2013)

Um fato: SEMPRE antes de melhorar piora um pouco. Sair da inércia requer energia, pensar, planejar, agir, fazer uma reunião a mais, um treinamento, uma faculdade. Eu brinco que piora só um pouco e logo melhora.

É importante que se saiba isso, pois precisaremos de esforço, e, em geral, a expectativa é que melhore rápido com pouco esforço (linha amarela tracejada).

As formas de mudança

Segundo o KMM (Kanban Maturity Model p296), os psicólogos sociais dividem as mudanças sociais em quatro categorias básicas, divididas entre duas que promovem mudanças e duas que não promovem:

KMM tabela 16.1

Sem mudança:

  • Períodos de estabilidade com pessoas felizes, e;

  • Inércia com pessoas frustradas ou reclamando apenas;

Ou seja, se está feliz, não tem mudança. Parece óbvio, mas o motor da mudança é uma tensão ou insatisfação, uma dissonância cognitiva que mostre que a realidade é diferente da expectativa.

Porém, há pessoas frustradas que não conseguem promover mudanças. Vejo isso como um grande problema. Como apoiar as pessoas a conseguir progredir? Não adianta só tomar consciência da frustração, precisamos assumir a autorresponsabildiade e tomar atos de liderança, promovendo pequenos experimentos.

Com mudança:

  • Incremental (normativa), onde pessoas estão insatisfeitas e há liderança na mudança, e;

  • Dramática ou estrutural, onde são grandes mudanças estruturais que causam ansiedade e medo;

A mudança normativa se relaciona com as “pequenas curvas ‘J’” faladas anteriormente. São experimentos que não comprometem o status ou identidade das pessoas, são pequenos o suficiente para testar e seguros para falhar. Não precisamos passar meses em planejamento, pois encaramos a evolução como um processo emergente e não linear. Esse tipo de mudança precisa ser estimulado.

A mudança revolucionária, dramática ou estrutural, busca reorganizar papéis existentes, fazer grandes mudanças com planejamentos de longo prazo. Vamos exemplificar:

Problema: Vendas estão caindo

Solução dramática/revolucionária: Demitir o time - ou parte dele - e contratar novas pessoas, treinando elas por três meses.

Solução normativa/evolucionária: Fazer um teste, dividindo a equipe ao meio e cada parte testará um modelo de vendas diferente. Ao final de três semanas avaliaremos os resultados para propor alternativas.

Ambas fazem parte da evolução, em alguns momentos uma mudança drástica pode ser necessária, mas, em geral, as mudanças evolutivas/normativas são mais frequentes, com maior taxa de sucesso e podem levar a uma mudança maior, porém de forma mais equilibrada e com menor stress.

Aprender a gostar do desconforto de pequenas mudanças

Olhando para os tipos de mudança organizacional, é perfeitamente possível adaptar para uma mudança individual.

Recapitulando:

O ideal é aproveitar suas insatisfações e aprender a gerar pequenas mudanças incrementais, com baixíssima resistência. Pense em pequenos experimentos que causem o “stress suficiente” para um pequeno passo.

A evolução é não linear e pouco visível no curto prazo (você está evoluindo sim, mas sem ver isso). Espero que o entendimento de que a mudança não é uma linha reta para a felicidade traga conforto. São idas e vindas, um labirinto que às vezes parece não estar evoluindo, mas saiba que, se está seguindo sua curiosidade e entrando na sua zona de aprendizagem de vez em quando, certamente está evoluindo.

Para praticar:

  • Você está feliz ou com alguma insatisfação?

  • Essa insatisfação faz você reclamar e permanecer na inércia ou agir? Se estiver na inércia, busque pensar que “a culpa não é sua, mas a responsabilidade é" e pense como pode promover pequenos experimentos;

  • Planeje micro experimentos que não alterem quem você é drasticamente: Mudanças de horário, um teste em um dia pontual mesmo sem rotina, entre outros;

  • Se parecer “pouco” e sem resultado, apenas se mantenha em movimento. Saiba que é assim mesmo mas você está evoluindo!

Fez sentido? Tem opinião ou alguma experiência a compartilhar sobre isso?

Um abraço,

Pedro.

Referências citadas:

Imagem capa: Suzanne D. Williams

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