O mandamento supremo

#025 - Quem é Deus? Por que amá-lo sobre todas as coisas?

Quarta-feira, 24 de janeiro de 2025 às 19:26.

Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Há algum tempo eu sinto falta de alguma prática espiritualista. Em um momento na adolescência me lembro de passar por uma questão e me perguntar “por que eu, Deus?”.

Enquanto jovem qualquer coisa que hoje parece boba pode virar uma grande questão, e isso me levou a estudar sobre cosmologia, filosogia e religião.

Me considero sem religião, mas adepto ao espiritismo, pois foi essa doutrina que conseguiu, quando eu ainda era adolescente, responder a várias das minhas perguntas, especialmente sobre a desigualdade entre as pessoas ao nascer, entre outras.

Em casa, Julia e eu, em determinada época, adotamos a rotina de ler “As cartas do caminho sagrado”, como uma forma de conexão com algo para além do dia a dia e ter reflexões intencionais.

Isso se perdeu, e volta e meia nos deparamos com o incômodo de querer retomar, mas sem saber como. Não me vejo “encaixando” em alguma religião, mas sinto a necessidade de ter a espiritualidade, inclusive para passar esses pensamentos para os meninos (Theo e Vicente).

Na última quarta eu fui a uma palestra no Centro Espírita aqui perto de casa, influenciado por minha mãe que vai regularmente (obrigado, mãe!). Essa palestra tinha o tema 'O mandamento supremo' e me trouxe alguns insights e conexões, que vou compartilhar hoje.

Em vários textos eu compartilho a ideia de “Alma do mundo”, “a vida é inteligente”, etc. Essa conexão com algo para além da materialidade me interessa, e é o que quero discutir nesse texto: não interessa a todos? O fascínio pelo divino e imaterial é algo inato? 

Vamos explorar:

  • O que é Deus? Como se relaciona com “a vida ser inteligente”

  • O mandamento supremo como resumo das leis divinas

  • Uma oração de São Francisco de Assis que é bela, independente de religião

Espero que o texto interesse mesmo a quem não tem uma religião, e ajude a se aproximar dessa inteligência com curiosidade.

O que é Deus?

Uma das coisas que eu nem percebia, mas agora vejo, é que eu tinha um certo afastamento das religiões por acreditar que ao falar em “Deus” se referem a um homem lá no céu, sentado em seus afazeres como um administrador em uma empresa terrena.

Aprendi essa semana que, ao descrever Deus no Livro dos Espíritos Kardec perguntou “Que é Deus”, e não “Quem é Deus”. Parece sutil, mas faz toda diferença.

Perguntar “Que é Deus” reconhece que não é “alguém” que está lá em cima, um homem branco olhando tudo e tomando decisões, como um CEO do planeta. A visão trazida por Kardec foi:

Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas

Allan Kardec - Livro dos Espíritos p.39

Imagem criada por IA

Isso naturalmente se conecta com a percepção trazida em outros textos que “a vida é inteligente e torce ao nosso favor”. Percebi que essa frase, de Lucia Helena Galvão, tem essencialmente o mesmo significado de 'Deus é inteligente e torce ao nosso favor'.

Esse pequeno aprendizado já me reconectou com essa inteligência divina. A minha visão é que chamamos de “Deus” por uma facilitação de linguagem e tradução. Essa inteligência é tão além da nossa compreensão que precisamos inventar nomes terrenos para facilitar a comunicação.

Porém, por que é tão difícil pensar em “Deus” dessa forma? Por que parece algo tão além da nossa compreensão?

Humanos e formigas - uma metáfora para explicar Deus

Tive receio de parecer ridículo na metáfora, mas gostei dela e expliquei assim para o Theo (5 anos), buscando exemplificar como é difícil para nós reconhecer essa inteligência suprema, que é Deus. Contei uma história usando uma metáfora do homem sendo “Deus” e a formiga o “homem”, aproximadamente assim:

Imagine como é a vida para essa formiga aqui andando na mesa. Ela é um animal pequeno e não sabe falar, ler ou escrever, provavelmente não faz desenhos ou poesias. Se pensarmos na relação Homem-Deus como se fosse Formiga-Homem fica um pouco claro o quanto podemos estar longe da inteligência divina.

Imagine se a formiga fosse dar um nome para nós, se fossemos os Deuses delas. Primeiro que nem linguagem elas tem, teria que adaptar à forma de comunicação delas, que certamente não conseguiria enquadrar o grau de complexidade que é um ser humano, suas emoções, vontades e etc.

Ficou clara a metáfora?

Nós, homens e mulheres nesse planeta, não conseguimos nomear, entender ou expressar, pela mesma razão que a formiga não consegue nos entender. É algo TÃO longe da nossa capacidade, que se torna inútil tentar - buscar reconhecer que não estamos sozinhos, que a vida é inteligente e torce ao nosso favor para mim está suficiente.

Talvez esse seja o primeiro salto de fé, reconhecer essa insignificância e simplesmente acreditar.

Não acredito que a ciência vai provar, pelas mesmas razões expostas acima. Porém não consigo acreditar em uma vida sem sentido, materialista, onde tudo isso que vivemos não tenha uma direção.

O mandamento supremo

Esse era o tema da palestra que participei. O palestrante dissecou brilhantemente o tema, primeiro dando um histórico, conectando os 10 mandamentos de Moisés, os ensinamentos de Jesus e o estudo de Kardec.

Inicialmente eram os 10 testamentos de Moisés (não matarás, etc), depois veio Jesus, com muito mais leveza (a sociedade já estava menos embrutecida), e Kardec evoluiu em cima de ambos para a doutrina espírita.

O mandamento supremo você deve conhecer já, é aquilo que se fosse resumir todos os ensinamentos de Jesus em uma frase seria:

Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Eu, cheio de preconceito e arrogância, olhava essa frase com um certo desdém (abrindo meu coração aqui). Com a visão de “Deus” como o “juiz” e CEO do mundo, não acreditava em crer dessa forma nesse “Deus”. Esse excesso de “caridade” e amor ao próximo também que me incomodava, como se a igreja católica prezasse demais por se doar ao outro, sem, na minha visão, considerar o indivíduo nisso. Tinha essa visão errônea de que era tudo pelos outros, como se só pela “caridade” já estaria pavimentado o caminho da evolução.

Desabafo feito, vamos ao novo entendimento.

Amar a Deus sobre todas as coisas

Primeiro, com a ideia de Deus como inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas - a inteligência da vida, me parece bastante óbvio esse “Amar a Deus sobre todas as coisas”. Isso não quer dizer, como eu imaginava, uma crença cega nesse “homem CEO do mundo” ensinado por aí.

Se a vida é inteligente e Deus é essa causa primeira, ignorar isso é andar pelo mundo sem propósito, achando que nascer e morrer não têm sentido. E isso é perigosíssimo na minha visão!

Me parece muito razoável “amar a inteligência divina e causa primeira de todas as coisas”. Se eu não parto dessa premissa, nem faz sentido de falar de amor ao próximo ou a mim mesmo.

Com esse novo entendimento, eu falo com bastante propriedade que amo a Deus sobre todas as coisas. Simplesmente sou apaixonado por essa ideia de sentido ou significado da vida. Acho que é algo inato e natural essa tendência à busca de sentido, mas isso é outra conversa.

Amar ao próximo como a si mesmo

Comentei que tinha um entendimento errado também dessa frase. Tinha uma visão de uma questão “caridosa” demais, onde tudo era pelo outro.

O palestrante de cara me tirou esse conceito errado, falando que a ordem é:

  • Primeiro: Amar a Deus sobre todas as coisas: Pois, como falei, sem isso nem faz sentido o resto. E, também, amar a si e aos outros também é amar a Deus (inteligência suprema), então tudo se fecha nesse primeiro.

  • Segundo: Amar a si mesmo: Essa frase não existe, está subentendida. Eu não posso amar ao próximo como a mim se eu não amo a mim mesmo. Primeiro tenho que me educar, me elevar, amar a mim mesmo é exercer esse cuidado do corpo e da mente, a busca pelo progresso em si mesmo. Faz total sentido, e equilibra para mim a visão de “caridade” apenas para fora. Se estou completo, no caminho de evolução, amar ao próximo é um passo natural. Toda mudança começa em si mesmo, é o único ponto que temos controle e responsabilidade. De nada adianta uma caridade externa sem o trabalho interno.

  • Terceiro: Amar ao próximo como a si mesmo: Agora sim, ciente da inteligência da vida e do meu caminho de trabalho pessoal de progresso, consigo com naturalidade amar ao próximo.

No fundo as três coisas se juntam, mas essa ordem das coisas me pareceu ter muito sentido.

Concluindo, essa conexão para além da materialidade parece ser um componente relevante em nossas vidas (chamando de diversos nomes, como “Alma do Mundo”, “Inteligência da vida”, “Deus”, entre outros).

Quero te pedir dois caminhos práticos para fechar juntos esse tema:

  • Como é sua história com essa inteligência suprema? O que é religião para você? (por favor responda à pesquisa ao final)

  • Se sente afastado (a)? Vamos fazer essa pequena oração?

Oração de São Francisco de Assis (adaptada)

Sou muito simpático à história de Francisco de Assis. Tivemos o privilégio de comemorar um aniversário de casamento em Assis, cidade de nascimento do santo.

A simplicidade e forma de conexão divina com coisas do dia a dia é algo que me atrai. Deixo aqui a oração, que provavelmente já conhece, mas como forma de ler e ter um minuto de conexão também.

Hoje quando leio “Senhor” e “Mestre” entendo que é uma forma humana de dar um nome para essa inteligência suprema, não sendo obviamente um homem - essa visão parece pequena, mas me aproxima da religiosidade (como já discutimos):

Senhor (inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas),
Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Ó Mestre (inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas),
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!

Amém

Oração de São Francisco (adaptada)

Retomei esse estudo e aproximação com essa inteligência divina e fico curioso como você vê esse tema. Me ajude a entender melhor como pensa (2 perguntas):

Um abraço,

Pedro.

Referências

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